Thursday, July 12, 2012

O ópio (?) do povo

Essa época do ano é um período de transe para o fanático por futebol: finais da Libertadores, da Copa do Brasil (nesse momento o Palmeiras põe as duas mãos na taça), ligas e copas europeias, torneios de seleções... toda essa maratona de disputas de taças, no entanto, desperta o entusiasmo do curioso que ouviu falar da final da Libertadores no programa da Ana Maria Braga, do torcedor ocasional, do simpatizante, do fanático e do torcedor "estudioso", que observa o futebol e recolhe dados e estatísticas de maneira enciclopédica. Toda essa (ruidosa) euforia, é claro, é antagonizada pelo descontentamento daqueles que são completamente avessos ao esporte. E a principal crítica que leio e ouço é que o futebol é o ópio do povo, que aliena e transforma o torcedor num ser distanciado da realidade, alheio a acontecimentos - principalmente políticos.

Em certos momentos, principalmente durante os anos da ditadura, isso faria mais sentido. Havia até um ditado: "Onde o Arena vai mal, time no Nacional", sobre a inclusão de equipes de regiões onde o governo militar fraquejava no Campeonato Brasileiro - o que explicava torneios disputados entre quase uma centena de participantes. Hoje, porém, o futebol não tem nem mais força para ser usado como ferramenta de manobra de massas já que a fidelidade do torcedor diminuiu progressivamente no decorrer dos anos, algo visível através das cada vez menores médias de públicos, muito inferiores a de outros países e concorrente com, por exemplo, os Estados Unidos, país onde o esporte nem desfruta de tanta popularidade. 

Isso se refere apenas ao público que frequenta estádios, ou seja, apenas uma porcentagem ínfima das torcidas - há todo o universo dos que acompanham à distância ou apenas dizem que têm um time por simpatia. De acordo com a Placar, o número de pessoas que não torce para nenhum time chega a mais de 36 milhões, mais do que as maiores torcidas do Brasil. Ou seja: se o brasileiro é alienado, não é por causa de um esporte que tem suas disputas transmitidas em meras quatro horas por semana na rede aberta.

Onde está o seu deus, amigo culto?
Se o problema não é o futebol, não vou ter pretensão de dar uma de sociólogo para justificar os motivos que levam nosso povo a não se interessar por nada que lhe seja construtivo. Porém, como isso é só um blog e ele é meu, posso usa-lo para apontar um julgador dedo na direção de quem faz essa afirmação falaciosa sobre meu esporte favorito (hehe). Dizer que futebol é o ópio do povo é um lugar comum óbvio, porém prático: em apenas uma sentença, o crítico se põe acima da massa de mediocridade ("que ignorantes, essa gentalha só sabe gritar 'gol!'") e também passa uma falsa impressão de conhecimento, pois seria necessário não ser um parvo para detectar a ignorância dos acéfalos. No entanto, esse clichê sobre o futebol é tão previsível como brincar com a maleabilidade do apoio do PMDB a outros partidos ou perguntar quando será a vez de José Sarney se aposentar a cada figura pública que é cassada em Brasília - quando Demóstenes Torres foi cassado, a palavra "Sarney" chegou aos temas mais discutidos do dia no Twitter devido a todos os "E o Sarney??" publicados.

Além disso, há sempre a comodidade de transferir a responsabilidade para alguém. "Esse pessoal briga por causa do time e não briga por causa da política". Ora, amigo, por que ele não briga pelo time e você briga pela política? Quando fui a uma manifestação referente aos escândalos recentes na prefeitura campineira, pouquíssimas pessoas "independentes" (sem ligação com movimentos ou entidades) esteve presente. Claro que os mais revoltados e mais sedentos de justiça não estavam presentes. E o mais curioso: na maior parte das vezes em que tento levantar alguma discussão com amigos ou nas redes sociais envolvendo temas como economia, política ou acontecimentos do mundo, vejo comentários das mesmas pessoas: a turma do futebol. Assim sendo, já começo a ter dúvidas sobre todo esse engajamento e esclarecimento de quem culpa o futebol pela ignorância dos outros. Qual a diferença entre um ignorante e um esclarecido apático?

Enfim, fica aqui minha argumentação, que acabou tomando tons de desabafo. A única forma de se dizer que o futebol é o ópio do povo é porque ambas as formas de fuga da realidade estão em desuso. Se há outras drogas mais modernas e mais potentes, como novelas, Big Brother ou igrejas neopentecostais, aí isso vai além de minha alçada.

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