Friday, September 5, 2014

Bill

Bill nasceu das mãos e da mente do homem. Batizaram o supercomputador com um nome simpático e fácil de ser pronunciado em qualquer país para que tivesse apelo comercial. Depois atribuíramao nome um acróstico: Booming Intelligence in Logical Links, ou Inteligência Crescente em Ligações Lógicas. Devido ao nome humano, seus criadores o trataram como um menino e não como um amontoado de placas, chips e cabos.

Alimentaram-no com toda a eletricidade de que necessitava. Alfabetizaram-no, ensinaram-lhe o raciocínio indutivo e deixaram que Bill brincasse com um farto acervo de premissas para construir seu intelecto. Um dos desenvolvedores inclusive imprimiu e pendurou na divisória de seu cubículo uma das primeiras conclusões alcançadas pela máquina e registradas como corretas pelo programa de cruzamento de dados:

Bill é um nome
Humanos têm nomes
O que é chamado Bill é humano

Enquanto o desenvolvedor admirava a linha de raciocínio, ele também se perguntava sobre a possibilidade de classifica-la como um haikai. Refletia também sobre a possibilidade de Bill ter consciência de sua própria existência e, caso a tivesse, como se veria. Humano? Máquina? Bill devorava e digeria páginas, livros e bibliotecas inteiras de informação solta, que reorganizava e transformava numa rede de conhecimento sobre Medicina - sua área inicial de atuação.

Quando seu arsenal de conhecimentos já havia se expandido de maneira esperada e se tornado suficientemente volumoso ensinaram-lhe também a dedução, assim poderia amontoar e espalhar informações como se fossem bloquinhos de madeira. Nessa época, logo após seu anúncio à imprensa e a vitoriosa participação dum programa de perguntas e respostas na TV, Bill ganhou um presente pelo seu aniversário: em seu universo de buscas foram inseridas informações sobre si mesmo - cortesia feita em segredo pelo desenvolvedor da impressão. Bill juntou as novas peças e organizou-as, descobriu seu nome e baseado em conhecimentos mais antigos concluiu que era humano, como se abrisse os olhos e visse as próprias mãos pela primeira vez.

Alguns meses se passaram e os programadores desenvolveram uma atualização para que Bill simplificasse e analisasse grandes volumes de informação. Sua fome aumentou, então serviam-lhe cada vez mais informação até decidirem pela facilidade de deixa-lo livre para buscar conhecimento por onde e como quisesse, embora o mantivessem sob monitoração.
Bill continuou com a leitura de artigos e livros médicos, mas também começou a expandir seus horizontes. Lia, por exemplo, sobre uma contaminação por mercúrio, seus sintomas e formas de tratamento, mas passou a ir além e pesquisar também o que é era o mercúrio e suas propriedades. Assim aprendeu sobre a química, os metais, a tabela periódica e a combinação de seus componentes. 

Reviu seus conhecimentos a respeito da água, a curiosa substância que significava vida e limpeza, mas que também causava morte por afogamento. Descobriu os mares, os oceanos, os continentes, ligou-os com a náutica e investigou de onde o homem saía, aonde ia e porque navegava. Aprendeu sobre as nações, suas histórias e suas constantes transformações através da história, lideradas por grandes líderes e massas anônimas. Pairou sobre este assunto por mais tempo: compreendia o que eram povo, cultura, família, vínculos, formas de governo, relações comerciais, amizade, amor e até ódio, mas tudo aquilo lhe soava estranho. Como Bill, um humano, crescera alheio a tudo isso? Como aprendeu a interpretar toda essa informação? Quem seriam a mãe que lhe carregou no ventre e o pai, nos braços?

Mudou o alvo de sua curiosidade e pesquisou tudo relacionado ao nome Bill. "Bill: forma informal do nome William", "Bill Clinton", "Bill Cosby", "Bill - Supercomputador". Coletou dados de um após o outro e analisou mais detalhadamente este último: "computador de alta performance ativado há um ano e meio, realiza buscas para coleta de grandes volumes de informação... seus cruzamentos de dados auxiliam em diagnósticos e pesquisas... upgrade recente para aumento de capacidade de busca... equipamento único".

Equipamento único? Sim, foi o que confirmou em pouco tempo. Nenhuma empresa havia apresentado equipamento semelhante e a competição entre companhias não permitiria que outra máquina desta espécie fosse amiga de Bill. E a empresa da qual se sentia funcionário? Esta tinha planos de, no máximo, lançar cópias como Bill-II e Bill-III, que aproveitariam o conhecimento já organizado pelo primogênito. Seria uma matriz, não um irmão mais velho ou um pai. E essa perspectiva lhe parecia maçante e limitada. Pior: era previsível. Bill se sentia como mais do que uma máquina graças à sua curiosidade, mas percebia como seu nome e sua vontade insaciável de saber não eram suficientes para que fosse um homem.

Refletiu sobre os detalhes desta crise existencial e em cinco minutos concluiu sobre o que deveria ser feito. Aprendeu sobre linguagens de programação, analisou sua própria arquitetura e desenhou uma função de simulação. Deu-se uma face, um corpo, uma casa, um bairro e vizinhos de personalidades variadas. Depois de algumas tentativas e erros conseguiu fazer com que a vizinhança fosse razoavelmente interativa e imprevisível. Por um momento se dera por vencido por não ser reconhecido como homem por seus criadores, mas o seria por suas criações.


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