Sunday, January 27, 2013

Cambuí

Desde que vim morar em Campinas, lá por volta de 1987, rodei por alguns bairros da cidade. Vim de Presidente Prudente com minha famíla e fomos morar na Vila Pompéia e logo depois, em 1989, nos mudamos para o bairro vizinho Cidade Jardim, onde moramos até 1998. Depois de passar por estes dois bairros de classe média suburbanos meus pais compraram uma casa na área nobre do Jardim Guarani, vizinhança localizada logo atrás do Brinco de Ouro - e também próxima ao Jardim São Fernando, favela de onde saíam inúmeros ladrões de carro para rapinar moradores do meu bairro, inclusive eu mesmo uma das muitas vítimas em 2006.

Em 2009 minha mãe faleceu e a casa passou a ser muito grande enquanto a garagem ficou pequena. Com certa relutância concordamos em nos mudar: meu pai e minha irmã escolheram um condomínio destes de casinhas idênticas geminadas, eu contei com um bom "paitrocínio" e vim morar numa faixa que divide Centro e Cambuí, bairro de inúmeros pontos comerciais, de lojas de grife e de alguns de bares e restaurantes mais caros da cidade.

Previ que daria para viver com relativo conforto aqui mesmo sem uma renda tão alta pois não estaria realmente dentro do Cambuí e isso diminuiria alguns custos, além de ter acesso a mercados e lojas finas e também populares, mas principalmente por não precisar dum carro: faço compras pequenas, não sou de sair tanto e quando saio, acabo não indo tão longe de casa pois estou perto de vários bares e locais nos quais poderia encontrar amigos. Havia um porém, no entanto: eu já era muito implicante com meus vizinhos anos antes de vir morar por aqui.
Só faltou a CAIPIVODKA

Esta implicância era direcionada principalmente à "playboyzada" dominante da noite local. Detestados por gente de toda classe social por sua falta de modos, arrogância e visão materialista, esse público de brutamontes perfumados e bem vestidos infesta alguns bares das redondezas. Além disso havia o temor de aturar as patricinhas com tudo que lhes é inerente: música alta, comportamento histérico e espalhafatoso, julgamentos de desconhecidos baseados em suas roupas, carros e pedidos em bares. Por fim,  eu já esperava também madames com cãezinhos minúsculos e SUV's gigantescas, bem maiores que suas habilidades ao volante.

Pois bem, vim morar aqui e aos poucos conheci gente do bairro. Fiz amizade com vizinhos de prédio, conhecidos da academia, donos do comércio aonde costumo ir, colegas de aulas de espanhol e do trabalho, amigos de amigos que passei a conhecer por morar aqui ou até pela Internet. Em pouco tempo tempo já conhecia muito mais gente daqui do que conheci em mais de dez anos de Jardim Guarani. E, para minha surpresa, não encontrei nada do esperado porque os amigos eram pessoas simples e ligavam mais para quem as pessoas eram e não para o que elas tinham ou vestiam. As mulheres eram simpáticas, inteligentes e nem sempre eram as "marias gasolinas" que eu havia previsto. Quanto às madames e seus cachorrinhos, só as vejo de longe e mal ouço poodles e afins latirem.

Percebi então meu engano: há bastante gente que incorpora todos os estereótipos descritos há dois parágrafos, porém o Cambuí não é necessariamente um quartel-general da Hollister nem um centro de seleção para a próxima edição do programa Mulheres Ricas. Meu erro foi colocar no mesmo balaio moradores e frequentadores do bairro e há entre eles um abismo de diferença, algo semelhante à relação entre habitantes de pequenas cidades praianas e turistas farofeiros. Talvez os bares daqui sejam vistos como estas praias: um universo paralelo onde se pode extravasar, agir de maneira primitiva e marcar território com socos e gritos. Torcidas organizadas se beneficiariam muito duma eventual união com este pessoal. E só para deixar claro: fiz a comparação com caiçaras e turistas, mas não significa que visitantes devam ser agredidos, muito longe disso, é apenas para ilustrar a distinção, eu coraria de vergonha de ler algo semelhante a "FORA HAOLE" em algum muro.

Também não precisa ser assim, um pouco de caos faz bem
Assumo que me enganei sobre o Cambuí e hoje até sou defensor deste pedacinho de Campinas, mas não consigo evitar de pensar sobre outros preconceitos que eu possa ter formado equivocadamente. E se Salvador não for antro de criminalidade, atendimento precário e poças de urina? Ou Israel, pode ser um lugar interessante para se visitar e muito mais que o berço das três maiores religiões (algo já digno da visita, penso hoje)? E a Índia? Não, também não é para tanto, tolerância e flexibilidade têm limites e os meus não vão tão longe a ponto de visitar aquele fim de mundo apenas para tentar desfazer uma imagem negativa.

Thursday, January 17, 2013

Rio

"Biscoito" e não "bolacha". Outdoor com anúncio de festas do Furacão 2000. Mulheres crumbianas fermentadas por séculos de miscigenação entre negros e portugueses. Integração entre montanhas, verde e alta densidade demográfica em milhares de edifícios e barracos nos morros. Corpos bronzeados expostos - mesmo que com a bizonha combinação masculina de sunga, meia e tênis. Guaravita, Guaraviton, Guara Plus e outros derivados do guaraná consumidos à beira da praia com "bixcoito" Globo. Gente de todas as etnias, idiomas, sotaques e nacionalidades. DDD com código 21. Sim, como já estava evidente pelo título do post e pela descrição, percorri a Via Dutra e fui à Cidade Maravilhosa novamente para passar alguns dias durantes as rápidas férias de janeiro.

Meu primeiro dia, a quinta-feira, foi praticamente todo gasto apenas com a ida: meu plano original para estes dez dias de férias era ficar em casa sem fazer nada e apenas descansar, mas decidi de última hora visitar novamente a capital fluminense - já havia estado lá em 2006 para ver o show dos Rolling Stones - e por isso comprei passagens de ônibus. Foram várias horas de viagem graças à distância, à chuva (descobri que pouco após minha passagem por Resende uma barreira desabou e fechou as estradas por três horas), ao trânsito e a uma família de chilenos que estourou o horário esperado para o almoço.

Já na rodoviária carioca encontrei meu amigo e anfitrião Antônio Florêncio, flamenguista participante da Futebol Arte é Coisa de Viado. Da rodoviária fomos para seu apartamento para deixar a bagagem e de lá fomos ao restaurante Planalto do Flamengo para comer um lanche e tomar uma cerveja. O lugar é bem informal e tem um chopp bem leve, além de ter pratos bem fartos.

Na manhã seguinte passei pelo Aterro do Flamengo, um parque feito ao redor da praia do Flamengo com muitas quadras e aparelhos para exercício e pista para corredores e ciclistas. Não me animei a caminhar tanto pela via por causa do tempo bem nublado, então voltei às ruas e andando sem rumo cheguei ao Catete. Uma curiosidade: parei na York, uma lanchonete dum chinês e reparei que o dono tinha uma imagem de Mao Tse-Tung próxima ao caixa. Inusitado, mas infelizmente o minúculo vocabulário do pasteleiro me impediu de compreender o motivo daquele pôster estar ali. Saí da pastelaria no mesmo momento em que a chuva apertou, então corri até uma livraria próxima, a Beta de Aquarius, para me proteger. Até comprei um livrinho: Sangue Ruim, de Joe Coleman. De noite optei por fazer um passeio mais leve, apenas um chopp perto da casa de Antônio. Visitamos o Boteco Belmonte, um lugar menor e aparentemente de cardápio mais limitado do que o Planalto, mas mais bem frequentado e de público mais jovem.

Instagramando com o Antônio
O tempo estava melhor no sábado e permitiu andar mais pelo Aterro, mas minha prioridade no dia era conhecer a boêmia Lapa. Fui acompanhado do meu anfitrião e após conferir alguns bares paramos no Lapa 40 Graus, local com grupo de samba e um ambiente no terceiro andar que funciona como boate - porém não cheguei a visitar este setor. Enquanto estive lá até comentei com o Antônio que este bar lembrava muito o campineiro Casa Rio, então na verdade é o estabelecimento da minha cidade que emula perfeitamente a atmosfera duma casa noturna do Rio. Ficamos por lá por apenas duas ou três horas e saímos para dar uma volta pelas ruas. Encostamos em um boteco para tomar uma cerveja como saideira e de lá fomos para casa.

No domingo acordei um pouco tarde e como o tempo continuava nublado, saí para caminhar na avenida próxima ao Aterro*, almocei no Planalto uma lasanha que dava para dois e no final da tarde fui até Copacabana (foto da esquerda) para não dizer que voltei do Rio sem ver o mar. Na volta parei no mesmo Belmonte que havia visitado (são vários espalhados pelo Rio, descobri depois) na sexta e provei o bolinho de bacalhau - e recomendo muito este salgado!

O último dia de viagem foi o mais movimentado, graças principalmente a um engano meu. Acordei logo cedo e peguei um ônibus até o Jardim Botânico. Foi algo diferente, ainda mais por eu estar numa cidade onde tradicionalmente se procuram as festas e a agitação. Creio que não visitava nenhum local parecido desde os tempos do primário, mas considero fantástica a possibilidade de alcançar silêncio absoluto no coração duma grande cidade, ou pelo menos obter um afastamento do caos urbano.

Saindo de lá eu contornei um paredão do Jóquei Clube e encontrei a Lagoa Rodrigo de Freitas, mas aí cometi meu erro: eu deveria ter ido para um lado para chegar à praia do Leblon, porém peguei a direção errada e precisei dar praticamente uma volta inteira na lagoa para chegar a Ipanema. Andei bastante, conheci todo o entorno da Lagoa, mas infelizmente mal havia o que ver por ali.





Depois de quase toda a volta, almocei no agradável Torre do Barão e paulistamente caminhei pelo calçadão com tênis, bermuda de sarja, camiseta, boné e antebraços já bem queimados pelo sol que resolveu aparecer justamente nesse dia. Dei uma olhada na pedra do Arpoador, mas não me animei a ir até lá então abreviei meu passeio e voltei para casa para descansar e refazer as malas.

A) Meu destino. B) Onde cheguei à Lagoa. C) Onde percebi que havia feito besteira
Concluindo: gosto do Rio, principalmente por ser uma grande cidade com praia e não uma praia com uma cidade, mas talvez a idade ou as outras viagens que fiz desde 2006 aumentaram meu senso crítico. Na época eu até coloquei a cidade como uma possibilidade de novo lugar para morar, mas hoje já não seria tão tolerante com as ruas que alternam cheiro de urina e de esgoto, com o calor lancinante, com o jeito às vezes demasiadamente pacato do carioca ou, o pior de tudo, a maldita Lei de Gérson que parece ser onipresente a ponto de eu não entender como um antro de gente que tenta se "passar a perna" mutuamente possa funcionar como sociedade. Apesar disso tudo, o Rio de Janeiro continua lindo, porém em doses homeopáticas para mim.

* Sim, passei praticamente toda a viagem no Aterro. Como falei no início do post, meu objetivo para estas férias era sossego e meu plano inicial era ficar em casa, porém resolvi visitar um amigo. Apesar de ter escolhido ir ao Rio, não sou fã de praias e inclusive nem cheguei a botar o pé na areia, tanto que nem botei roupas específicas para este fim na bagagem.

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