Friday, April 18, 2014

Razzo

"Fui ateu por praticamente 25 anos. Fui químico, por um tempo, e sempre amei a ciência. Sou cético, e de tanto duvidar, encontrei o sentido da verdade na Cruz. Depois de 15 [anos] estudando filosofia, compreendi uma coisa: Deus busca os desgraçados"

Tuesday, April 15, 2014

Almoço

Obrigado pelo convite a este almoço. Aliás, o agradecimento vai além convite e se estende à compreensão pelo abuso da hospitalidade: apareci meio sem avisar, tomei a liberdade de abrir os armários e belisquei uns petiscos antes da refeição principal. Mas tudo bem, né?

Você tentou se justificar, mas não era preciso. A escolha do tradicional e italianíssimo espaguete pode te parecer demasiadamente simples, mas meu paladar não é dado a invenções e aventuras – cri que o fosse, mas é do homem se deixar levar por sua curiosidade. E, de certa forma, há alguma diversão em brincar com esse enrolado e imprevisível novelo comestível, mesmo quando ele nos parece indomável.

Enquanto falamos do prato principal, te lembro de algo: eu havia antecipado o quão desajeitado sou, é verdade, mas não esperava desperdiçar parte do molho de tomate com gotas espalhadas sobre a toalha de mesa. A propósito, este toque apimentado era pimenta calabresa ou ciúmes? Enfim, isto não vem ao caso, mais importante do que seu ingrediente secreto foi o ponto de equilíbrio alcançado com precisão. E peço a toalha emprestada para que eu a devolva limpa, como nova – ou realmente substituída por outra nova, caso esta já esteja muito manchada.

Sobre o vinho, acertei na escolha? Tomei o cuidado de não exagerar com uma agressão ao seu paladar e não dar-lhe sono com um chazinho insípido. Inclusive recomendo que fique com o finalzinho dele, assim caso o sabor dele seja marcante, será fácil encontra-lo novamente.

E a sobremesa? Formidável! Delicada e ao mesmo tempo de sabor sutilmente insinuante, sua composição foi inesquecível – e o azedinho do maracujá harmonizou perfeitamente com o gosto do meu arrependimento.

Mais do que para deixar um agradecimento, uso a oportunidade para pedir um favor: da próxima vez, posso preparar um almoço como forma de retribuição?


Friday, April 4, 2014

- Alô

Porto Alegre, 1980 e pouco.

Carlos Itajubá avança pela zona intermediária do campo do Beira-Rio com a bola. Pelo canto do olho percebe o avanço de outro colorado à sua esquerda e lança a bola em profundidade. Bola e jogador se infiltram através da linha de zagueiros e se encontram na entrada da grande área e já se despedem: num efêmero instante Cláudio toca a bola com sua perna esquerda. Faz com que ela percorra o caminho mais improvável até a rede: passando rente ao pé de apoio de Balão, o goleiro gremista.

O terceiro gol do Inter, o terceiro do mineiro Carlos, sela a vitória no Gre-Nal, o (coincidentemente) terceiro e último clássico do ano. No primeiro o time vermelho havia sido goleado, neste mesmo estádio, quando as duas equipes disputavam partida da fase classificatória do Brasileiro - apenas o Grêmio se classificou à fase de mata-mata para ser eliminado pelo Cruzeiro nas quartas de final. O segundo confronto foi realizado no Estádio Olímpico, com vitória dos tricolores com um gol de Paulinho e outro do uruguaio Pablo Martínez. Embora muito desacreditado, o time do Guaíba reagiu, alcançou o resultado necessário para conquistar o título e interrompeu a momentânea soberania gremista de chegar ao sexto título consecutivo do torneio estadual.

O atacante vê a bola passar pela linha de cal e não interrompe sua corrida após a confirmação do gol. Passa pela linha de fundo, salta sobre as placas de publicidade e parece procurar algo. Vê o enxame de desgraçados da coreia, alguns jornalistas enrolados num novelo de cabos, dois gandulas abraçados e o orelhão. Os torcedores o veem correr até o aparelho telefônico e alguns riem da forma inusitada de comemorar o gol. Carlos se esconde sob a cabine, cola a cabeça ao telefone e ouve: conforme esperado, ele está tocando.

- Alô - atende o atleta.
- Carlos, tá tudo certo agora, tchê.
- Vocês vão soltar minha mãe?
- Claro, vamos.
- Tá legal.
- Carlos!
- O quê?
- Obrigado... e desculpa.

Ali

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