Thursday, March 21, 2013

Meira Penna

Outro trecho de O Espírito das Revoluções, de José Osvaldo de Meira Penna. Reflete bem o momento de revolta coletiva com o atrasado Pastor Feliciano.

"Como todos os engenheiros sociais, cientistas políticos 'construtivistas' e políticos demagógicos, Alberto Salles pregava a República, o direito de voto e a democracia. Queria que o povo governe. Mas quando esse povo ... elege como seus representantes assassinos, narcotraficantes, proxenetas, analfabetos e sem-vergonhas, passam a esganar-se no protesto moralista, patrioteiro e apocalíptico. Ora, não somente cada povo tem o governo que merece, mas o nível intelectual e moral da República reflete o gabarito intelectual e moral dos eleitores. Não é fácil sair dessa... A mania de redigir constituições ineptas, com elas desencantar-se e, logo em seguida, procurar reformá-las passou a ser um dos joguinhos mais populares do regime republicano. Optamos, por infelicidade, em favor do fechamento autoritário, introvertido, ressentido e progressivamente estatolátrico de que tão dificilmente nos estamos agora desvencilhando".


Monday, March 18, 2013

Conselhos ao meu filho inexistente

Bom, filho, nós nunca conversamos, principalmente porque você não existe, mas mesmo eu sendo um chucro já tem algumas coisas que eu posso ir te ensinando. Ouça atentamente porque não sei por quanto tempo o Blogger continuará ativo - e duvido que farei back-up destes posts. Muitos destes ensinamentos foram descobertos através do "eupirismo" e podem estar equivocados, mas cabe a você continuar testando-os.

Primeiramente, não lamente as oportunidades perdidas. Se não há como recuperar algo, bola para a frente e, se ainda tem como, corra atrás em vez de chorar por algo que esteja errado. Além do mais, há males que vêm para o bem: há quem acorde atrasado e escape duma queda de avião, quem perca um emprego em empresa que vem a falir e também quem leve um fora duma mulher que, mais tarde, se revela uma víbora mau caráter.

Não se sinta mal por não estar de acordo com a preferência das multidões. Se você pesquisar no Google ou qualquer outro site de buscas aí do futuro, vai descobrir que um tal de Michel Teló fez sucesso por todo o mundo em 2012. Se um aglomerado de gente cometeu um erro crasso desses, podem errar várias outras vezes. Fica aí uma lição importante: democracia não é sinônimo de liberdade.

Tudo tem sua hora - e a hora de ser adolescente não pode passar muito do começo da casa dos 20 anos, não importa o que digam na MTV.

Não pise nos outros. Antes de menosprezar alguém, pense em todos os motivos que outros também teriam para te discriminar e em como você se sentiria com isso.

Gestos valem muito mais do que palavras (principalmente quando você tenta investidas com uma mulher que diz "para!" sem fazer algo para que você realmente pare).

Já que o assunto é ousadia, seja ponderado em suas escolhas, mas não esqueça de consultar seu instinto. Com o tempo aprende-se qual dos dois tem prioridade e em quais situações é possível simplesmente ser inconsequente e leviano.

Escolha com cautela seus amigos, mas não seja criterioso demais - não considere isto como uma entrevista de emprego. Além da questão da quantidade, variedade faz bem para expandirmos nossos horizontes e nossas ideias. Até as más influências podem deixar uma contribuição positiva à formação do nosso caráter.

Falando em escolhas, torça por um time cuja torcida te agrade. Alegrias e tristezas podem ser proporcionadas por qualquer clube no mundo, mas a sensação de pertencer a uma família é única e nenhum título do mundo pode te proporcionar isso.

Conhecimento nunca é demais, mas se ele for focado é melhor. Por mais que se viva, não há tempo para aprender tudo, então escolha alguns assuntos que você considerar mais importantes e evite de perder tempo com superficialidades do que não te vai servir para nada.

Quando for escolher uma mulher, sempre dê prioridade à inteligência e a um bom senso de humor. Namorar uma cabeça oca, mesmo que seja uma über-gostosa, talvez impressione seus amigos e desconhecidos e certamente tem seus benefícios, mas quem vai ter que aturá-la dizendo atrocidades será apenas você.

Toque violão. Se até a crítica musical especializada pode ser generosa com músicos, imagine como agem umas garotas predispostas a "conhecer melhor" um rapaz com um violão. Você pode até ter um repertório ridículo, apenas não seja um músico ridículo - às vezes a mediocridade já serve. Claro, esse é o primeiro passo, depois disso você está por conta própria. Se eu soubesse administrar bem a fase posterior, talvez você já estivesse aqui para ouvir tudo isso.

Então é isso aí, Totò. Por hoje é isso que tenho para te dizer

Monday, March 11, 2013

Popper

"Durou algum tempo antes que eu reconhecesse... que a liberdade é mais importante do que a igualdade; que a tentativa de realizar a igualdade põe em perigo a liberdade; e que, se perdida é a liberdade, não haverá nem mesmo igualdade entre os não-livres".

Sir Karl Popper, em trecho de Unended Quest reproduzido em O Espírito das Revoluções, do brilhante J. O. de Meira Penna.

Monday, March 4, 2013

O Sétimo Selo

A cena de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, em que os penitentes surgem e interrompem a apresentação do casal de artistas Jof e Mia com seus cantos e autoflagelação feitos para tentar aplacar a ira divina e trazer a salvação da Peste Negra.


Saturday, March 2, 2013

Negros Heróis

Pessoas da minha geração devem se lembrar de Cegos, Surdos e Loucos, filme de 1989 estrelado por Richard Pryor (Wally, o cego) e Gene Wilder (Dave, o surdo) de presença constante no Cinema em Casa, do SBT. A história conta como os dois protagonistas testemunham parcialmente um assassinato e, mesmo após terem seus depoimentos descartados pela polícia, ambos ainda são perseguidos pelo autor do crime. Cito o filme por uma cena específica na qual Wally é alertado de que tentar se passar por alguém com visão normal seria tentar se passar por um homem branco. Dave larga seu jornal (segurado de cabeça para baixo) e faz um escândalo por descobrir que não é branco. Diz que terá que fazer ajustes em sua agenda, imagina o que seu amigos dirão e até pergunta se seu pai sabe disso.

Uma interpretação mais afoita pode ver esta cena como racista, porém é o contrário: o desespero de Wally vem de sua consciência da segregação, do preconceito e da discriminação vindos da diferença da cor da pele. Wally, porém, vive num país onde o racismo foi praticado e mais tarde combatido abertamente, mas como reagiria a essa descoberta um brasileiro, habituado a uma cultura que trata brandamente o passado escravagista e a botar panos quentes sobre a segregação que ainda aconteça, embora muito se diga que no Brasil não existe racismo?

Foi um choque parecido com o de Wally que senti após ler Negros Heróis, obra do amigo Roniel Felipe. Jornalista, fotógrafo e agora lançando seu primeiro livro, o autor conta a história de dois personagens que, cada um em uma época, lutaram pelo negro, pelo pobre e pelo explorado em trabalhos iniciados em Campinas e de amplo alcance posterior. Apesar do enfoque sobre dona Laudelina de Campos Mello e "TC", como era chamado Antônio Carlos Santos Júnior, o livro também passeia pela história da cidade, do Brasil e do mundo e evidencia situações vexatórias às quais a população negra era submetida, às vezes num passado nem tão distante. E eu, como descendente de dois avôs negros já falecidos, tenho que apenas me limitar a imaginar quais constrangimentos narrados no livro também foram vividos por meus antepassados. Aliás, parafraseando um personagem de Mario Vargas Llosa do livro História de Mayta, eu olhei para o resto do mundo e virei as costas para o Brasil quando deveria olhar mais atentamente para meu país e seu povo, mas a leitura deste livro é um primeiro passo dessa nova caminhada.

Dona Laudelina
A primeira metade livro é dedicada à já falecida dona Laudelina. Nascida em 1904, pouco após a Abolição mas ainda vista como posse de sua patroa, a mocinha de Poços de Caldas cresceu entre brigas com colegas brancas de classe e o trabalho como ajudante de sua mãe, faxineira dum casarão. Anos depois a jovem mineira saiu de sua cidade, casou-se em Santos e foi constituir família na capital paulista, cidade em que nasceram o filho Alaor e a luta de Laudelina pela melhoria de condições das empregadas domésticas. Extremamente ativa, a mineira ainda se alistaria à Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, ocasião em que foi baleada e teve sua saúde de debilitada devido ao ferimento. 

Encerrado o conflito internacional, Laudelina voltou a Santos para trabalhar na casa da portuguesa Bedecilda Vaz Cardoso, mãe de Hilda Hilst e "patroa muito liberal" como definiu a própria Laudelina. Mais tarde, no começo dos anos 50, Laudelina passou a morar em Campinas após a vinda de sua amiga e empregadora e na cidade deu continuidade às suas atividades como líder sindical após a morte de Bedecilda. Seguem-se então décadas de lutas, organização de eventos (inclusive um concurso de beleza feminino, o Pérola Negra), promessas esquecidas de políticos e apoio a outros grupos de empregadas domésticas. Mais de cinquenta anos de combate foram recompensados apenas com a Constituição Federal de 1988 e a garantia de direitos assegurados à classe defendida pela "Tia Nina". Os frutos haviam sido colhos e em 1991 a senhorinha mineira pode descansar em paz.

A segunda metade é dedica a Antônio Carlos, mais conhecido como TC (ou Tio Caio), nascido na cidade das andorinhas na época em que Laudelina chegava a Campinas. Integrante da primeira geração de moradores do São Bernardo, TC passou alguns anos no bairro recém-fundado antes de morar no interior de Minas Gerais, porém voltou - mesmo com intensos protestos - para dar prosseguimento à sua educação.
TC estudava, porém sem regularidade e aos dezenove ainda conciliava trabalho e estudos. Durante as aulas no Colégio Evolução conheceu Lumumba e Cidinha, casal de amigos muito versado sobre a história do negro e sobre a agitação cultural viva nos Estados Unidos. Com inspiração na postura altruísta dos Panteras Negras do período de Huey Newton e Bobby Seale, o grupo formado pelo trio e outros amigos passou a se encontrar para discussões e debates sobre a situação do negro. 

Foto atual de TC
Jonas Rocha Lemos, diretor do colégio, notou a movimentação entre os estudantes e os convidou para aulas de expressão corporal e teatro. Assim nasceu, em 1971, o Grupo de Teatro Evolução. TC participava como músico e o grupo logo começou a se apresentar na cidade e no interior do estado com uma peça de Lemos, Sinfonia Negra e reproduções de cenas de discriminação do Centro de Campinas. Aqueles anos da ditadura levaram o grupo a alguns confrontos e monitoração constante, mas as atividades foram mantidas apesar destes obstáculos. Mais tarde o grupo se desfez pois seus principais integrantes começaram a se espalhar e, nos anos 80, TC passou a realizar suas atividades na Casa de Cultura da Vila Castelo Branco, rebatizada de Casa de Cultura Tainã. O grupo até hoje trabalha para tirar crianças de rua e evitar que sejam seduzidas pela vida do crime, mas assim como Laudelina, TC e sua trupe precisaram de muito esforço para manter a Casa viva, mesmo com ordens de despejo e sem lugar para ficarem. Hoje a instituição mantém suas atividades na Vila Padre Manoel da Nóbrega e o "final feliz" da história foi a entrega do prêmio de Honra ao Mérito Cultural de 2006, entregue a TC por Lula e pelo então Ministro da Cultura Gilberto Gil.

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Com escrita leve e usando sua experiência como jornalista, Roniel conta duas vidas com ritmo bem cadenciado e torna a leitura agradável, apesar dos momentos de tanta tensão descritos em cerca de 170 páginas. Esta peça de jornalismo literário tem duas biografias ricamente descritas, tanto quanto dos ambientes e contextos em que seus protagonistas viveram. A obra, aliás, me lembrou em alguns momentos o filme Forrest Gump, em que o rapaz chega a protagonizar eventos da história americana. Laudelina conheceu um jovem Juscelino Kubitschek, foi apoiada pelo promissor vereador Orestes Quércia e TC testemunhou o nascimento de bairros antigos como a Vila Rica e a Vila Bela além de sofre com os anos de chumbo da ditadura.

Portanto, recomendo este livro a todos que queiram conhecer um pouco da história dos negros no Brasil, além de ter contato com biografias inspiradoras. Além disso, é interessante conhecer a história da cidade e de como ela conviveu com o racismo até recentemente: numa passagem, por exemplo, é dito que nos anos 50 ainda havia divisão de ruas para se fazer o footing, com negros na Glicério e brancos na Barão de Jaguara. Tenho apenas uma ressalva a respeito das imagens dos personagens contidas no livro, creio que elas poderiam receber mais espaço e não se limitar apenas ao final de cada uma das partes. Independentemente deste detalhe, a obra ainda vale muito a leitura. Para quem quiser mais informações ou comprar o livro, fica aqui o LINK para o site.


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