Saturday, April 23, 2011

Falta pouco

Nesta semana houve o feriado de Tiradentes e, há um ano, passei por dois momentos decisivos nesta data comemorativa. Assim como defini a um amigo paulistano usando uma expressão esportiva, era dia de "rodada dupla": sairia para tomar um café da manhã com minha vizinha e, perto do horário de almoço, teria uma entrevista gerencial na IBM. Pois bem: o café durou algumas horas e foi interrompido pelos funcionários da padaria que já preparavam o espaço para servir o almoço. Pouco tempo depois cheguei a Hortolândia, falei com minha ex-futura chefe e após algumas semanas fui admitido no emprego. Neste meio tempo, saí mais algumas vezes com a vizinha, hoje minha namorada Lucila.

Nestes últimos dias pensei bastante nesse momento e, principalmente, em toda a confiança que recebi dela. Exceto pelas "marias chuteiras", as mulheres não querem um homem pelo seu dinheiro, mas em parte pela segurança que ele pode oferecer e por suas ambições. No entanto, recebi muito apoio duma companheira que acreditou em mim e que me deu uma chance mesmo quando eu estava num momento desfavorável, desempregado já por um bom tempo.

A comemoração, então, foi simples, mas carregada de significados. Fomos à mesma padaria daquela manhã ensolarada do outono passado, de novo com limitação de horário graças à empresa da qual faço parte, mas desta vez por ter que começar a trabalhar de casa às 13 horas (pedi a mudança, mesmo com a indagação de meio time sobre a escolha de ficar online até tarde no feriado). O mais óbvio é que fomos lá para relembrar aquela primeira vez, mas também achamos outras razões, mas só posso falar pelas minhas: fui para não esquecer daquele voto de confiança dado a um ano. Também fui para dar início a uma tradição e que esta seja apenas a primeira de muitas repetições.

"You know that I care what happens to you and I know that you care for me too"
Estamos agora prestes a completar o primeiro ano de namoro. Vamos nos desencontrar um pouco na data, mas já temos viagem marcada logo depois - assim que voltar da primeira viagem das férias, que comentarei no próximo post, faremos uma viagem a dois para Minas Gerais. Apesar do tempo juntos, será nossa primeira viagem para turismo de fato, já que nas outras várias outras vezes em que pegamos a estrada, geralmente vamos visitar parentes ou amigos. Por enquanto, o jeito é roer as unhas com a espera e a ansiedade.

P.s.: Se tiver alguém esperando uma declaração pública... fiquem esperando sentados (hehe).

Sunday, April 10, 2011

Estamos de luto (?)

Esta semana foi marcada pela chacina do Realengo, no Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, um jovem de vinte e quatro anos e ex-aluno da escola Tasso da Silveira, assassinou a tiros doze estudantes . Não escreverei nada sobre este acontecimento em si, mas sobre a cronologia dum crime marcante, do momento em que ele é cometido até seu esquecimento - já que reparei como o roteiro tende a ser mais ou menos o mesmo.

A primeira reação, claro, é o choque. Todos se espantam, muitos oram, declara-se luto. Talvez por não haver uma base para comentar o acontecido, o contato entre o público se limita a perguntar "você ficou sabendo do caso tal?". Quando todos já sabem das notícias, começa a manifestação do ódio e do desejo de vingança. "Que monstro!", "Precisa ter muito sangue frio!" e "Falta Deus no coração destas pessoas" são as acusações mais comuns. Há também os torturadores. "Alguém que é capaz de tirar a vida de alguém dessa forma merece sofrer muito", diz alguém que não nota sua própria incoerência e cobra sessões de tortura de quem não deu valor a uma(s) vida(s).

A justiça de alguns cidadãos de bem
Após extravasar toda a ira, a emoção dá lugar à razão e aí vem a onda dos especialistas. Assim como todo mundo vira técnico da Seleção em época de Copa do Mundo, qualquer leitor de jornal - ou nem isso - torna-se sociólogo, psicólogo, jurista, pedagogo, legista, analista de segurança (valeu, Globo) ou expert em qualquer outra área relacionada com o crime de grande repercussão mais recente.

Como o mundo gira e surgem novos fatos pertencentes a outros assuntos diariamente nos jornais, após algum tempo (alguns dias ou semanas, dependendo da falta de pauta nas redações) a repercussão e a comoção em torno do caso inicial diminuem. Como não surge nada de novo para relatar e o acervo antigo já foi explorado à exaustão, menos notícias são veiculadas, mas discussões são propostas para evitar que o erro se repita. Louvável se não fosse a síndrome de tratar o efeito e não a causa.

Há aquela piada do sujeito que chegou em casa e encontrou sua mulher com outro no sofá da sala. Após uma briga e uma semana de paz, a situação se repetiu. Alguns flagras depois, já cansado, deu um basta na situação: vendeu o sofá. Se matam crianças, questionam o Estatuto do Desarmamento - como se um insano fosse comprar uma arma passando por todos os trâmites e exames psicológicos - e os jogos de videogame preferidos do assassino, mas não a entrada ilegal de armas no país ou o número de pessoas que precisam de tratamento psiquiátrico  e não recebem tratamento. Se há um tiroteio no cinema, questionam o filme exibido. E quando se muda o foco diante da plateia, ela pede mais.

O último passo antes do esquecimento é a aceitação a piadas sobre a notícia (e estou falando de algo amplamente difundido, não apenas dos espíritos de porco), aí banaliza-se a tragédia e ela torna-se algo corriqueiro. Cito o exemplo do Emílio "Morre, Diabo", que assassinou a mãe e virou meme de Internet ou o americano Antoine Dodson, cuja irmã escapou por um triz de sofrer abuso sexual e também virou sucesso online graças a seu jeito peculiar e trejeitos.

Este é o perigo que me assusta e me preocupa. Sempre ouvi que uma das qualidades do povo brasileiro é ser alegre e bem humorado, mas estas características são positivas apenas para a hora de "levantar e bater a poeira" ou para um momento de descontração. Rir de casos de corrupção, chacinas, catástrofes naturais e outras causas para se chorar de indignação não é bom humor, mas uma certa forma de anestesia aplicada através de eufemismos - ou talvez só a perda da vergonha de um exército de desnaturados. Assim, a alegria e o riso são máscaras mais simpáticas para apatia, comodismo e aceitação.

"Oh, coitadinhos, que desastre... olha, é maldade, mas tenho que te contar essa!!"
P.s.: agora eu que virei o sociólogo de mesa de bar, mas esse texto, infelizmente, é atemporal. Além disso, eu sou meio que o "engraçadinho da turma", principalmente na Internet (onde não tenho que ligar tanto para a reação de quem lê), mas há alguns meses faço um esforço para controlar essa postura.

P.s. 2: escrevi esse post com sugestões da minha namorada, principalmente da segunda foto!

Sunday, April 3, 2011

Mudanças

A noite de ontem foi marcada por um evento "inusitado": o casamento da minha amiga Daiane Parno, colega de faculdade desde os primeiros dias após os trotes. A turma não era exatamente a mesma criada ao acaso pelo professor Paulo Afonso, alguns integrantes deste grupo começaram a andar com gente diferente ainda no decorrer do curso de Jornalismo, mas foi bom reencontrar o pessoal após estes quase dez anos do princípio da faculdade. O melhor de tudo foi ver que, no geral, o pessoal apenas confirmou o post do Guilherme "Amargo" Pilotti sobre algumas atitudes que tiram a credibilidade de qualquer pessoa que as faça após completar vinte e cinco anos.

No começo do texto disse que o casamento seria algo inusitado e explicarei porque: Daiane era a menina mais porra-louca daquela turma bem comportada. Todos ali viviam o deslumbre de conseguir pagar as primeiras muitas cervejas, as cabeças lotadas de idealismo não tinham muito espaço para tradições antigas (quem casaria se é bem mais fácil "juntar"?) e, entre uma desilusão e outra, minha colega não parecia ligar para a combinação véu e grinalda. Pois bem, alguns anos depois, após começar a trabalhar com televisão, mudar para São Paulo e morar com o até então namorado, veio o matrimônio numa bela igreja de Americana.

Além da noiva, outros também mostravam como o tempo age de maneira sutil: o socialista de beira de piscina, tão habituado à camiseta de Che Guevara, saiu do armário capitalista trajado duma camisa Lacoste. Cabelos longos hoje são cortados periodicamente, ao menos os fios que restaram. As calças jeans esfarrapadas e chinelos só combinam em casa - mas a temporária juventude dos jornalistas ainda não permite olhar fotos da época de estudos e dizer "como que eu saía ASSIM de casa?" entre risos.

Não só o figurino foi alterado, a bebedeira também foi gradualmente deixada de lado com o passar dos anos - e não só por este que vos escreve, autor da façanha de deixar duas garrafas long neck passarem do prazo de validade. Lembrávamos como quaisquer cinco reais reunidos viravam algumas garrafas de Itaipava, a cerveja novidade da época. Ironicamente, as principais bebidas da festa foram servidas por um serviço de coquetéis. Entre um e outro vinho frisante, acabei tomando um drink de melancia, maracujá, manjericão e sake - e é muito bom, antes que me julguem!

Melhor do que Itaipava morna no chão da Padoca

Há várias mudanças menores individuais e bem menos óbvias, mas não teria como saber de todas: não mantive contato com o pessoal e nem era tão próximo de toda a turma para conseguir fazer um "antes e depois" decente. Eu mesmo mudei no decorrer destes nove anos, mas não conseguiria apontar aqui todas as mudanças. Ficam agora as dúvidas: a forma como contestamos muito e questionamos tanto durante a juventude é nossa mesmo ou apenas um esteriótipo em que nos encaixamos? Com o passar dos anos a forma de exprimir insatisfação se altera e passa de barulho e conflito a acidez e sarcasmo, muito mais por necessidade de conviver em grupo pacificamente do que por desenvolvimento da capacidade da pessoa de se exprimir. No entanto, será que não faria bem trazer um pouco disto para a vida adulta? Sim, é preciso pagar contas e alguns sapos precisam ser engolidos, mas ter um brejo nas entranhas não pode sempre ser mais vantajoso do que alcançar uma pequena conquista, mesmo que para gente que irá apenas usufruir deste embate muito depois dele acontecer.

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