Friday, November 23, 2012

O diploma

São alguns meses de atraso e nem iria escrever sobre o tema, mas como o blog precisava ser atualizado resolvi registrar aqui algumas linhas sobre a discussão a respeito da exigência do diploma de curso de Jornalismo para que se exerça esta profissão. Essa é a minha área de formação, porém creio que virei uma ovelha negra entre alguns colegas por ter me posicionado contra a decisão do Senado. Já havia demonstrado meu ponto de vista sobre o assunto em um ou outro debate no Facebook, mas é melhor fazer algo mais elaborado e permanente.

O principal argumento dos defensores desta decisão, é claro, baseia-se no preparo obtido nas faculdades. As aulas teóricas e práticas fariam do estudante um jornalista preparado para o mercado de trabalho, para as redações e para os veículos de comunicação. Alguém "de fora", sem diploma e sem a experiência que se obtém no decorrer dos quatro anos de curso não teria o mesmo know-how dum diplomado, mas cito uma situação que testemunhei bem de perto.

Durante os anos que fiz esse curso não houve nenhum ensinamento transmitido sobre jornalismo esportivo. NENHUM. Houve um dia em que um professor de rádio simulou a cobertura duma partida de futebol em classe, com alguns alunos chutando uma bola de papel e outros no lugar dos jornalistas: narrador, comentarista, repórteres de campo, ouvintes. Essa simulação, muito semelhante a uma brincadeira realizada em algum churrasco qualquer por amigos que já tenham assistido pelo menos uma transmissão televisiva na vida, foi o que mais se assemelhou a uma aula de jornalismo esportivo numa das faculdades mais tradicionais do estado. Apesar disso, bons jornalistas esportivos saíram da PUC Campinas, inclusive da minha turma. Não porque tiveram aulas sobre a história do futebol da cidade ou porque professores tenham ensinado por horas a fio análises táticas, formas de avaliar jogadores ou como funcionam os bastidores do esporte. Todo este conteúdo o jornalista desenvolveu por ter interesse nessa área e porque pesquisou, leu, se informou e acumulou conhecimento. E se esse aprendizado feito por conta própria permite que alguém escreva com propriedade sobre esporte, por que isso não pode se estender a outras áreas?

Alguém que se interesse, por exemplo, por economia, ciência ou cultura e que conheça estes temas profundamente pode escrever matérias com muito mais acuracidade e profundidade do que um jornalista posto frente ao teclado apenas para preencher uma vaga. "Mas e se o jornalista se interessar por esses temas?", podem perguntar. Então ele simplesmente poderia descartar este protecionismo e não deveria se preocupar em competir com alguém que não é jornalista formado, pois conhece a forma e o conteúdo. Assuntos relevantes como História da Arte, Economia e até a língua portuguesa são vistos às vezes apressadamente* e o aluno recebe apenas uma pincelada de temas tão importantes, portanto o ensino na faculdade não se aprofunda tanto no conteúdo e prende-se à forma, mesmo sendo esta adquirível por emulação.

Essa medida protecionista visa então blindar os jornalistas e garantir a manutenção de seus empregos enquanto o Jornalismo pode deixar de receber matérias mais bem escritas por gente com embasamento mais profundo. Aos colegas que defendem esta reserva de mercado por acreditarem que o diploma seja uma garantia de preparo completo para a ativade jornalística, deixo uma pergunta: o que achariam se a mesma medida fosse tomada para que se restringisse a atividade de assessor de imprensa apenas a quem tem diploma do curso de Relações Públicas?

Parafraseando Castelo Branco: "Se é eficiente, não precisa de monopólio. Se precisa, não o merece"
* Tive aulas de Português no primeiro semestre, porém a professora sofria de hérnia de disco e raramente conseguia comparecer para lecionar. Como não tínhamos professora subsituta, minha turma praticamente se formou sem estas aulas. (Perdão pelo momento Diário de Classe).

Sunday, November 11, 2012

E se vivêssemos todos juntos?

Nesta tarde vi o filme francês E se vivêssemos todos juntos? no Cine Topázio do Shopping Prado, um espaço que põe lado a lado lançamentos de Hollywood e também alternativos, internacionais e brasileiros. Gostei do cinema, há salas pequenas, porém aconchegantes e uma biblioteca fica disponível para que os clientes peguem livros emprestados. Levei Ciranda de Pedra, da Lygia Fagundes Telles para devolver não sei exatamente quando e fica aqui meu compromisso de também doar alguns livros ao acervo deles.

Sobre o filme, a história fala sobre cinco amigos já de idade avançada que, ao notarem como têm apenas uns aos outros como pessoas em quem podem confiar e se cuidarem mutuamente, juntam-se e passam a viver juntos numa espécie de república. A história mostra então a nova vida do grupo formado por dois casais (Jean e Annie, Albert e Jeanne) e pelo mulherengo solteirão Claude com o jovem Dirk.

É um filme belo e de um olhar muito otimista sobre o ocaso do homem ou, pelo menos, de como ele pode ser para a geração atual de idosos. Senhoras e senhores se divertem, mantêm um cotidiano ativo e continuam a viver com certa independência. A exceção é Albert, interpretado impecavelmente por Pierre Richard: o personagem começa o filme com um pequeno esquecimento (havia ou não levado o cachorro para passear?) e no decorrer da história seus lapsos aumentam exponencialmente. Jane Fonda, que faz a esposa Jeanne e Claude Rich, de personagem homônimo, são outros destaques frente às câmeras. Daniel Brühl aparece como Dirk, porém o papel desempenhado é ofuscado pois o carro chefe do longa é a quina da melhor idade.

Fica então essa dica de filme. Vale muito pelo trabalho dos atores e da agradável e divertida forma do diretor Stéphane Robellin de mostrar o envelhecer. Antes de ir ao cinema achei que este seria um drama pesado e de muitas cenas devastadoras, porém não encontrei nada disso - talvez minha visão pessimista do que é chegar a uma idade avançada deva ser revista e corrigida.

O casal Albert e Jeanne

Saturday, November 10, 2012

Robin Hood

Trecho do segundo livro da trilogia A Revolta de Atlas, de Ayn Rand, em que o pirata Ragnar Danneskjöld apresenta-se ao industrial Hank Rearden. As palavras em itálico foram marcadas assim pela própria autora.

"Saqueei os navios que ostentavam a bandeira da ideia que estou combatendo: a de que a necessidade é um ídolo sagrado que exige sacrifícios humanos, que a necessidade de alguns homens é uma lâmina de guilhotina pairando sobre outros, que todos nós temos de viver com nosso trabalho, nossas esperanças, nossos planos, nossos esforços à mercê do momento em que essa lâmina cairá sobre nós - e que quanto maior nossa capacidade, maior o perigo para nós, de modo que o sucesso coloca nossas cabeças sob a lâmina, enquanto o fracasso nos dá o direito de puxar a corda. Esse é o horror que Robin Hood imortalizou como ideal moral. Diz-se que ele lutava contra governantes saqueadores e restituía às vítimas o que lhes fora saqueado, mas não é esse o significado da lenda que se criou. Ele é lembrado não como um defensor da propriedade, e sim como um defenso da necessidade; não como um defensor dos roubados, e sim como protetor dos pobres. Ele é tido como o primeiro homem que assumiu ares de virtude por fazer caridade com dinheiro que não era seu, por distribuir bens que não produzira, por fazer com que terceiros pagassem pelo luxo de sua piedade. Ele é o homem que se tornou símbolo da ideia de que a necessidade, não a realização, é a fonte dos direitos; que não temos de produzir, mas apenas de querer; que o que é merecido não cabe a nós, e sim o imerecido. Ele se tornou uma justificativa para todo medíocre que, incapaz de ganhar seu próprio sustento, exige o poder de despojar de suas propriedades os que são superiores a ele, proclamando sua intenção de dedicar a vida a seus inferiores roubando seus superiores. É essa criatura infame, esse duplo parasita que se alimenta das feridas dos pobres e do sangue dos ricos, que os homens passaram a considerar ideal moral. E isso nos levou a um mundo onde quanto mais um homem produz, mais ele se aproxima da perda de todos os seus direitos, até que, se for de fato muito capaz, ele se transforma numa criatura desprovida de direitos, presa de qualquer um - ao passo que, para estar acima de todos os direitos, de todos os princípios, da moralidade, para estar num plano em que tudo lhe é permitido, incluindo o saque e o assassinato, basta para um homem estar em necessidade."

Sunday, November 4, 2012

Influências

Nesta última quinta-feria houve uma reunião do setor do qual faço parte dentro da empresa para rever números, resultados e destaques do terceiro quartil de 2012 e uma dupla de entrevistados, uma mulher do time de vendas e um gerente de operação, foi convidada para falar sobre pressão e como lidar com ela, uma forma de nos prepararmos para o pico de trabalho habitual dos finais de ano. Creio que o tiro saiu pela culatra, pois a moça parecia desanimadíssima, insegura em suas respostas e suspirava com olhar perdido a cada trinta segundos enquanto lamentava as ameaças de demissão e os números baixos recentes.

Seu companheiro de microfone parecia mais otimista e sereno, porém ele relatou um plantão iniciado às sete da manhã do último sábado de setembro e encerrado apenas no pôr-do-sol do domingo. A ideia inicial de mostrar como é possível trabalhar sob pressão descambou para um desabafo público, com muitas trocas de olhares nervosas entre funcionários e tensão suficiente para deixar muitos incertos se deveriam ou não bater palmas ao final da entrevista. A reunião foi então encerrada com uma outra mensagem motivacional: um vídeo com imagens de atletas das Para-olimpíadas ao som de Coldplay, uma jogada mais eficiente - embora um tanto sensacionalista, a meu ver, pois subentende-se aquele agressivo recado derrotista de que não se deve achar algo ruim pois poderia haver algo muito pior no lugar.

Pensei então em outros exemplos de palestra de motivação, como os vídeos tradicionalmente usados antes de grandes decisões do esporte com em que aparecem mensagens de incentivo deixadas por familiares e amigos dos atletas. Caso seja difícil reunir recados dos mais chegados, é possível também fazer uma exibição de O Gladiador, 300 ou Um Domingo Qualquer. Aproveitando a deixa do esporte, há também os casos de superação pessoal, como os de Lance Armstrong, Ronaldo na Copa de 2002 e da maratonista suíça Gabrielle Andersen-Scheiss. Um pouco além, temos inúmeros exemplos menos ilustres, mas mais presentes e marcantes: pais, alguns professores favoritos, amigos de atitudes exemplares... e, por fim, há aqueles anônimos que por um pequeno acidente do destino, uma coincidência ou destino, de acordo com cada forma de se encarar esse encontro casual, muda a vida de outra pessoa e dá uma empurrãozinho em um desconhecido mesmo sem saber disso.

Pensei então em três casos de estranhos que ajudaram a moldar meu caráter. Quando escolhi estas pessoas escolhi desconhecidos, gente que só conheci de vista e cujos nomes ignoro até hoje. O primeiro, por exemplo, foi visto numa noite chuvosa de domingo. Eu dirigia pela Francisco Glicério e, na esquina com a Ferreira Penteado, paramos num sinal vermelho atrás dum Gol quadrado branco e minha namorada na época avisou que um homem havia descido do carro. O motorista havia aproveitado a parada para descer e entregou uma marmita para um morador de rua que dormia sob a marquise. Tão rapidamente quanto ele desceu, o homem voltou ao seu carro e continuou seu caminho. Nem consegui vê-lo muito bem por causa da pesada chuva que caía, mas nesse dia aprendi o valor da solidariedade e da discrição em sua prática - e desde então tenho desconfiado de quem faz alarde para seus bons atos.

Meu segundo motivador desconhecido era um homem sempre visto num prédio em que trabalhei. Parrudo e muito acima de seu peso, porém de baixa estatura, tinha um andar cambaleante e já havia perdido quase todo seu cabelo. Lembrava um Clemenza uns quinze anos mais jovem, mas sem a elegância dum gangster ítalo-americano, com aspecto fatigado de quem luta incessantemente contra a gravidade. Este homem não tinha nada que lhe destacasse muito de outros funcionários já que a área de TI é povoada por inúmeros gordinhos destrambelhados, sendo eu inclusive um deles até então. Este anônimo, no entanto, chamou minha atenção por ter o grotesco hábito de, encerrado o uso do mictório, parar no meio do banheiro com as pernas estendidas num ângulo de 90 graus, como um A em que o ápice da letra seria sua cueca e o risco que a corta sendo sua calça arriada. Somente após o ajuste da camisa ele subia suas calças, fechava o zíper e lavava sua mão.

Este ritual bizarro e constrangedor era feito sem nenhuma vergonha, não importasse quantas pessoas estivessem por perto no momento. Como eu almoçava cedo, sempre que ia escovar os dentes o flagrava num desses atos de arrumação de sua já amarrotada camisa e criei uma implicância com aquilo tudo. Tanto me deparei com essa cena que passei a sentir antipatia por meu rival não declarado apenas por vê-lo nos corredores. Tudo isto não passava duma indisposição gratuita até o dia em que fui chamado de "Homer" devido ao meu peso e à minha calvície. Isto abriu meus olhos e vi como já estava tão gordo, careca e destrambelhado quanto aquela figura canhestra. Já ouvi que fui uma influência para outras pessoas perderem peso, revelo aqui então que decidi me matricular numa academia e entrar em forma graças a uma influência negativa - queria me afastar o máximo possível daquela imagem antes que eu começasse a fazer alongamentos em semi-nudez no banheiro.

Não dava para continuar assim
O último foi um exemplo heroico, uma história de superação digna de ganhar uma versão cinematográfica. Novamente um caso conhecido no trabalho: por cerca de dois anos tomei o ônibus fretado que levava à empresa com minha irmã quando morávamos perto do estádio Brinco de Ouro e um dos passageiros possuía um caso severo de paralisia. Seus braços e pernas não se articulavam, seus membros quase não se moviam e suas mãos ficavam viradas com os dorsos voltados um de frente para o outro. Mesmo assim esse rapaz obstinado tomava a condução quase todo dia e vencia suas limitações físicas, ainda por cima com um laptop do trabalho como peso extra. Aquilo me ajudou a ser mais otimista, a ver o que o próximo oferece de positivo e um profissional mais motivado, até que tentei mudar de projeto e por não achar nenhuma vaga disponível, perder o emprego.

Pulamos alguns meses na história e minha irmã revela o que ouviu sobre o meu "guru". Provavelmente acomodado pela lei que obriga grandes empresas a contratar portadores de necessidades especiais, o nobre ícone da determinação ia mesmo ao trabalho apesar das dificuldades, porém passava quase todo o expediente longe de sua mesa, indisponível e até em falsas reuniões - às vezes pretexto para escapulir e passar algum tempo na lanchonete. Essa foi sua rotina de trabalho por meses até que seu contrato chegou ao fim e a empresa decidiu não efetivá-lo, encerrando uma saga de motivação acidental. É irônico que ele tenha me motivado quando ele mesmo não tinha ânimo nenhum, mas acho que a maior lição que aprendi com ele é essa: às vezes nosso marketing pessoal pode até ser mais importante do que nossa produtividade.

Matt Foley, o motivador embusteiro

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