Sunday, July 14, 2013

Costinha, o atual

Num dia qualquer, entediado e assistindo uma daquelas longas sequências de vídeos no Youtube, rodei por alguns trechos antigos de trabalhos de humoristas brasileiros. Revi material dos Trapalhões, da TV Pirata, do Sai de Baixo e da Escolinha do Professor Raimundo. Deste último, para ser mais específico, vi principalmente vídeos do seu Mazarito, nome quase esquecido do personagem interpretado por Costinha – este já um personagem por si só. Revi alguns vídeos dele, até ouvi mais uma vez (na íntegra) seu LP O Peru da Festa e notei uma constante: é mais fácil encontrar nos comentários do site quem diga que Costinha não poderia repetir estas piadas do que elogios ou até mesmo críticas às piadas.

Costinha contava mesmo piadas politicamente incorretas. Envolviam portugueses, negros, a classe média, religiosos, casos extraconjugais, bêbados e “bichinhas”, como ele dizia. Estas piadas, porém, não tinham a depreciação como artifício para alcançar o riso: quando um homem diz que quer “dar uma no escurinho” e um rapaz negro apelidado de Escurinho se sente ameaçado pela saliência alheia, há menosprezo aos negros ou apenas um não muito elegante jogo de palavras? Ou quando a portuguesa, no momento em que esconde um gambá contrabandeado em sua calcinha, pergunta ao marido “Mas e o cheiro?” e o gajo responde “O gambá que se vire!”, rimos só do engano de Manoel perante esta questão ambígua ou também da conclusão inusitada?

Há uma enorme diferença entre contar piada sobre certos personagens e com certos personagens. Se um humorista sobe num palco para fazer stand-up e diz “O grupo X é escroto por isso e aquilo”, o alvo da piada é o grupo. Mas se em vez disso ele usa este mesmo grupo como meio para desenvolver algo que vai além dos integrantes deste coletivo, então ele não faz piadas tendo os adúlteros, os padres ou os portugueses como alvo. Costinha seria mais bem descrito como um narrador munido de pequenas histórias retiradas da série Will & Grace do que como um homofóbico.

Arsenal eclético e justo: ninguém escapa
Se falar algo relacionado a um grupo, mesmo que não seja negativo, é visto com um semblante reprovador, interpretar um integrante deste mesmo grupo parece algo bem mais fácil de ser digerido. Só não entendo muito bem porque isso é visto como antiquado e ofensivo num programa como A Praça é Nossa, mas como algo cool nos vídeos do Porta dos Fundos. Talvez seja mais uma destas preferências misteriosas, como gostar de sertanejo universitário e rir de moda de viola, mas cada um com seu gosto.

Talvez o melindre seja direcionado apenas ao comentário vindo "de fora" e a atuação seja uma forma de enganar os defensores dos não ofendidos. Há até um termo muito bem bolado, foi cunhado pelo twitteiro @da_cia e resume o pensamento de que "só quem é sabe": é a argumentação ad corinthianum, ou seja, só pode falar de algum tema polêmico quem o vive de perto (exceto se você é conservador, aí você perde direito a falar, mas ainda tem o dever de ouvir). A condição do negro e seu cotidiano só podem ser discutidos entre os negros, apenas homossexuais podem falar sobre homofobia, feminismo seria assunto apenas do mundo feminino e assim divide-se a sociedade em cilos incomunicáveis onde fermentam-se convicções até que elas cheguem a seus limites, estando corretas ou não.

Para encerrar, uso um exemplo do grupo Hermes & Renato baseado numa piada de Costinha. É uma piada protagonizada por um personagem gay, mas notem como a piada usa o non-sense para fazer rir. Não achamos nenhum absurdo um humorista fazer gestos exagerados, falar afetadamente ou andar rebolando, ou seja, é aceitável que ele reproduza algo narrado por outro, mas o narrador não pode descrever exatamente a mesma cena por ela se tornar ofensiva. Não é o humor mais brilhante do mundo, mas não é justo que o censuremos por aceitarmos nos ofender com tão pouco.

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