Saturday, June 30, 2012

Todo mundo odeia Nick Hornby

Trecho do livro Modern Footbal is Rubbish (algo como "Futebol Moderno é Bobagem"), dos britânicos Nick Davidson e Shaun Hunt. O livro discorre sobre vários aspectos surgidos no futebol recentemente e o texto abaixo é sobre o também escritor inglês Nick Hornby (sobre quem acho que até já escrevi aqui) e sua influência tanto positiva quanto negativa no esporte. Em vésperas duma final de Libertadores em que uma torcida outrora conhecida como "do povão" não tem mais lugar no Pacaembu para dar lugar a quem possa gastar pequenas fortunas na casa dos quatro dígitos por um cantinho na festa, acho que o texto é bem oportuno.

NICK HORNBY

É tudo culpa de Nick Hornby.

Não, não a explosão de literatura do futebol que permitiu a um par de aventureiros de segunda classe como nós conseguir um contrato de publicação. É maior do que isso. Muito maior.

A questão é esta: Hornby foi responsável, mesmo que sem intenção, pela mais avassaladora mudança na história do futebol?

Pense nisto por um instante. O livro Febre de Bola, de Nick Hornby, foi publicado no outono de 1992. A Premier League havia apenas começado e a Sky Television havia apostado seu próprio futuro numa eventual decolagem do futebol. Para a tentativa da Sky valer a pena, o esporte precisava estender seu apelo além dos torcedores fanáticos que frequentavam os estádios.

Liverpool, provavelmente nos anos 70...

Sempre foi um equívoco afirmar que o futebol era um esporte exclusivamente da classe trabalhadora. Por gerações, a maioria dos torcedores veio desta camada social, mas o esporte também atraía apoio considerável da classe média. No entanto, até Febre de Bola ser publicado, este apoio permaneceu discretamente encoberto.

Há uma maravilhosa passagem em Febre de Bola que descreve um jovem Hornby simulando um sotaque urbano diferente do seu nas arquibancadas de Elm Park, tentando se passar por um genuíno "hooligan cockney". Hornby era de Maidenhead, Berkshire. Nick (Davidson, não Hornby) estudou num colégio desta região, em Slough e exatamente o mesmo ocorria por lá. Era como se as crianças estivessem presas perpetuamente num teste do programa de TV Eastenders. Na escola - como no futebol - simplesmente não era legal admitir ser classe média. Febre de Bola escancarou essa farsa. Subitamente, era aceitável ser um torcedor de colarinho branco.

Claro, o tipo de pessoas que frequentava estádios não mudou da noite para o dia, mas tornou-se aceitável admitir ser um consultor de TI de Stevenage ou um gerente de banco de Solihull.

Este desensolvimento correria bem em isolamento, mas os tabloides e jornais dominicais acolheram Febre de Bola e, de repente, futebol era a moda entre a intelligentsia. Pessoas que cinco anos antes não assistiriam uma partida mesmo se fossem pagas para isso começaram a ir aos jogos. Uma mistura de exposição constante na mídia e estádios com cadeiras começou a atrair uma raça totalmente nova de torcedores. Além do mais, estes novos torcedores desafiaram o estereótipo da mídia a respeito dos fãs, antes vistos como hooligans acéfalos, mas isto teve um preço... um preço de ingresso inflacionado. Clubes podiam cobrar muito mais por uma cadeira barata de plástico do que por um lugar numa arquibancada em pedaços, especialmente com este novo tipo de torcedor disposto a pagar.

Vagarosa, mas certamente, torcedores comuns - a espécie que apareceria para jogos irrelevantes numa noite e úmida noite de terça-feira - foram escurraçados do futebol pelos novos preços. Agora a atmosfera nas partidas é virtualmente não existente, já que a nova espécie de fã, criada com uma dieta de Premier League e Liga dos Campeões, exige entretenimento constante; afinal, eles pagaram por esse privilégio.

... e Arsenal, hoje
Tudo isto foi culpa de Nick Hornby. Se ele não escrevesse Febre de Bola, torcedores da classe média continuariam a frequentar as partidas na surdina. A grande aposta da Sky teria fracassado e o belo jogo não se tornaria o inchado, corporativo monstro de hoje.

Sejamos claros, achamos Febre de Bola um trabalho de gênio, um dos melhores livros já escritos sobre o esporte que amamos. Ele certamente mudou a literatura futebolística para melhor. Infelizmente e acidentalmente, ele também mudou o futebol. Para pior.

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